quinta-feira, 15 de maio de 2008

Um encontro com o futuro

Cada dia passava vagarosamente, escorrendo lentamente por entre os dedos fechados de uma mão serrada que tenta insistentemente impedir a passagem do tempo por entre os seus próprios dedos.

Sempre acompanhados, os dois inseparáveis pesquisavam e revolviam o seu olhar para tudo à sua volta quer fosse uma flor, quer fosse um pássaro, quer fosse uma pessoa. Uma capacidade de análise esplêndida advinha do enorme coração que os dois irmãos criavam entre si. Ambos partilhando da mesma riqueza que criavam.

Apesar de diferente, o seu ambiente familiar permitia-lhes serem o que queriam sem objecções difíceis de superar, e cometer erros para aprender. Cada erro mais um diploma que exibiam com orgulho um ao outro a pensar: eu fiz, eu disse, eu estive lá… eu passei por isso.

Ferroadas frequentes eram contrabalançadas pelo incansável sorriso e apoio dos melhores amigos que não só eram próximos como tratados como verdadeiros irmãos. Não houvera nada até àqueles fatídicos dias que os fizesse romper a amizade, nem zangar. Até àqueles dias fatídicos uns anos mais tarde.

Com um sorriso que aumenta o brilho ao sol, os dois irmãos encaminhavam-se para um encontro com os seus companheiros de tudo e todos, com os seus amigos. Cada passo sentiam-se mais perto, cada segundo mais sorriam com a perspectiva de olhar mais uma vez nos olhos de todos eles.

Carlos saltava de desespero: as suas mãos vagueavam pelo cabelo, que neste ponto já estava desalinhado; os seus olhos não paravam um segundo, à procura de alguém rua acima e rua abaixo; a sua testa pingava o suor vindo à superfície pelo nervoso…

- Quero vê-la… Mal posso esperar para olhá-la nos olhos outra vez, para admirá-la mais uma vez… Será que.. Será que ela também..? Tu sabes…
- Se ela sente o mesmo por ti? – Inquiriu Matilde quase perdida de riso – Não to vou dizer, Carlitos, tens de ser tu a descobrir isso e se sim tudo bem, se não.. bem, fica pa próxima.
- Oh… Ok, isso não me ajuda nada…
- Mas posso dizer que… ela gosta de Lírios. – retorquiu finalmente Matilde com um sorriso matreiro no rosto.

Carlos olhou para a irmã. Vestia umas calças de ganda, uma camisola branca de manga à cava, calçava uns ténis de caminhada e usava o cabelo solto. Não podia estar mais simples.
- Só tu! Dizes sempre as coisas a metade, não podes falar decentemente como todos? – Estava na hora de a picar, declarou Carlos para si mesmo – É que não se percebe nada do que dizes!
- Percebe-se, só tu é que não percebes, seu cabeça oca!

Com sorrisos e risos os dois irmãos principiaram uma perseguição. Ela e ele corriam como se não houvesse amanhã e fugindo um do outro, num jogo íntimo entre os dois, numa afinidade que mais ninguém senão eles compreendia. Num acto que depois valeria por mais de mil palavras entre os irmãos, imortalizou-se aquela hora de fim de tarde.

Com a luz do sol poente reflectindo-lhes na cara correram e riram até à exaustão, até chegarem ao seu destino. Até olharem de novo um para o outro, até se abraçarem de novo. Até serem dois e não um mais uma vez.

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