Dando passos inseguros e estremecendo ao vento que fustigava o cenário de devastação, ele prosseguiu. Já experiente e relativamente à vontade neste ramo escrutinou os restos de um cenário devastador pela vítima principal... Sim, porque há sempre uma vítima principal.
Como letrado no assunto que era, resolveu dar uma revista pelos carros estacionados nas redondezas: danificados ou não. Estacou. O espanto invadiu-lhe a face e lamentou o segundo em que atendeu o telefone para um caso de urgência, caso a sua dedução estivesse correcta... Só falhára uma vez, bem podia falhar agora.
Examinou o bilhete de estacionamento, o carro não tava lá á muito. Muito pouco tempo antes do desastre. Desesperado olhou com mais atenção entre os destroços em busca de uma roupa ou forma conhecida, preferencialmente viva... Ele sabia que as hipóteses eram poucas. Mas não quis acreditar, até que...
-Senhor...
-Diga.
-Axo que encontrei parte da vítima principal.
Perto da zona classificada como a origem de todo o alarido, o oficial tinha encontrado o que agora se encontrava embalado num saco de plástico pronto para análise. Ele empalideceu. Tremeu de terror perante a possibilidade daquela mala que lhe era tão conhecida pertencer á mesma pessoa a que pertenceu o carro.
-NÃO! Não pode ser! Não é racional! Ninguém lhe quereria mal!
Perante o horror mal controlado do seu superior, o oficial desconfiou. Recusou-se a entregar o único vestígio encontrado na mão do mesmo, sabendo que o homem perturbado que se encontrava à sua frente poderia não ser, naquela situação, quem habitualmente demonstrava.
Sem forças ele arrastou-se para o carro. O oficial conduzia. O carro embatia em cada buraco e saltava, mas ele estava alheio a tudo isso. Não podia chorar, não podia. Não podia dar parte de fraco perante um subordinado e, principalmente, não queria lançar boatos sobre o caso.
A sua mente ainda não tinha assimilado o que descobrira quando chegaram à esquadra. Aí o oficial demonstrou interesse na história por detrás da reacção d'ele, mas não conseguia. Um nó na garganta impedia-o de falar, o estômago revolvia-se em protestos silenciosos e, apenas o controlo sobre o seu corpo, o impediu de criar um mar de lágrimas em honra dela.
Mesmo antes da análise, com luvas e devidas protecções, o oficial decidiu retirar a identificação da vítima da mala. Ele levantou-se de rompante e retirou a mala das mãos deles como se de o maior tesouro do mundo se tratasse.
Tresloucado pensou que poderia fugir e assim impedia que uma investigação viesse manchar o nome tão limpo e imaculado dela.
-Não, racionalizar, pensar. Pensa, pensa!
Acalmou-se e resolveu sentar-se: mais cansado do que alguma vez aparentou em toda a carreira de longos anos.
-Não tires, eu sei quem é, não contamines a prova. - disse secamente para o oficial.
-Então? Quem é? Preciso de saber para poder investigar...
-Não! Não a vais investigar, eu conto-te tudo sobre ela, mas deixa-a estar quieta onde está. Então é assim...
* * *
-Mamã! O mano ta-me a puxar os cabelos!
-Tá quieto ou ponho-te de castigo!
-Mas mãe...!
-Eu disse pára!
-...Sim, mãe.
Um dia normal. Verão. Praia. Sol. Familia. Miúdos a correr de um lado para o outro gritando, brincando, aproveitando. Uma alegria serena no rosto dos pais, um gosto enorme em vê-los. Uma alegria eterna, cada momento.
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Hehe, afinal aquele bocadinho n foi o único hoje...
Cusquem de vez em quando ;)
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