domingo, 13 de abril de 2008

Tarefa impossível

A correr. Impossível parar, impossível abrandar ou mesmo reflectir. As lágrimas escorrem pelo rosto e revolvem-se no ar à medida que a inércia do movimento as arranca amargamente à sua face.

Está frio, mas não se importa. Apenas com um leve vestido cuja cor faz lembrar um campo florido no auge da primavera e umas leves sandálias que relembram a cada segundo que querem repousar para que os pés que carregam mergulhem frevorosamente no mar.

Chove. As lágrimas transformam-se em chuva e a chuva em lágrimas, numa fusão tão inesperada que ambas se misturam num beijo amoroso que lhe envolve a cara e envolve todo o seu ser num desespero banhado pela água e pela parca luz do luar.

Estacando em frente ao mar a serenidade começa a acompanhá-la, embora momentaneamente. Cresce e cresce cada vez mais um espaço para sentimentos estritamente proibidos e que não consegue evitar. Traição. Mudança. Raiva. Ódio. Tudo isto revolve no seu interior sem que se apreceba. Tudo isto espicaça a sua vontade de se afogar nas águas eternas perto das quais se encontra.

A situação só ela a sabe. A dor só ela a sente. A história só ela pode contar mas está pálida de mais até para existir.

Pálida, mortificada, quase moribunda no seu desespero final, cria-se uma esperança ínfima e escassa no meio de tanta escuridão. Cria-se a vontade de ser perdoada e a vontade de ser deixada para o lado. Nasce a fonte de amor e desespero que dentro do seu peito faz doer cada batimento cardíaco.

Cai. Cai por sobre a areia molhada que se encontra a seus pés e derrama todas as suas mágoas e defeitos enquanto encolhida sobre si mesma. Sabe que não pode ser perdoada mesmo embora tenha perdoado tanta vez, não quer ser perdoada embora deseje que o mundo a aceite e acolha, não pode aceitar que a situação exista embora tenha sido provocada por ela.

Sem se inteirar do mundo à sua volta, sem crescerem mais luzes no horizonte que possam denunciar a sua mente, sem existirem mais anjos e estrelas no céu que aliviem a dor criada por si mesma a outros, ela enlouquece.

Os próprios princípios que defende quebrados por ela, a honra que tanto apregoa manchada por si mesma, o ideal de coragem que alberga carinhosamente no seu coração é rasgado impiedosamente pelo fulgor de um pensamento... Não. Não há histórias nem lendas que compadeçam de quem se arrepende pois quem pede desculpas já cometeu um erro.

Não. Mesmo olhando piedosamente para as águas cada vez mais revoltas e desejando que elas a tomassem como suas existe uma dúvida. Desistir. O maior paradigma de todos na mente dela. Desistir.

Enlouquecida e banhada pela água da chuva, ela existe. Ela sente que existe. Ela sabe que existe. E não desiste. Controlando e ignorando o impulso desvairado que a puxa para a imensidão aquática, ela tenta. Tentar uma vez mais. Tentar, tentar, tentar até não conseguir mais porque não pode... Mas nunca desistir.

O orgulho, a honra, a coragem que tanto deseja alcançar seriam desprezadas e inalcancáveis com tal acto.

Um pouco mais calma decide continuar. Mas o que fazer? Pedir desculpas? Os seus pensamentos estão tão turvos como uma pintura abstracta. Não existe linha definida pela qual começar uma conversa ou apenas exprimir o que sente. Não existe, nem tão cedo irá existir.

Colocando um ponto final em mais um dos desvarios constantes, decide recolher-se ao calor e conforto familiar do seu lar. Apesar de saber que ao chegar não se vai sentir merecedora de tamanho alivio ela sabe que precisa dele. Embora se deduza um espírito que a permite sacrificar-se por nada... ou por tudo... ou por ninguém...ou por todos... Ela sabe que não pôde ser assim.

Controlando-se o suficiente para providenciar que se aquece durante a noite, adormece. Um sono cheio de sombras e arrepios que a fazem acordar mas mesmo assim, um sono. Sonha, com tormentos relativos às consequências do mal que sente que fez. Do ódio e desprezo que acredita que criou, nem a opinião dos outros deita abaixo opinião tão obstinada e, como ela acredita, certeira.

Mesmo num sono atribulado, mesmo sentindo que não há perdão, ela descança e acalma. O calor, a segurança, o conforto e familiaridade do sono bastam para isso. Embora a sua própria consciência decida torturá-la com imagens que ela tanto teme por grande parte da noite, a mesma dá-lhe algum descanço merecido, pois sabe que quando acordar ela vai-se lembrar de cada promenor que a atormenta e a faz recear o seu próprio ser.

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História continua =)
Se gostaram fiquem atentos porque é capaz d aparecer mais partes.

1 comentário:

Miguel Santos disse...

É uma história interessante, tem um rumo um pouco triste, mas tenho a certeza que, mais cedo ou mais tarde anima.