Uma nova manhã nasce no horizonte. O céu começa a ganhar tons belíssimos de laranja que contrastam com o rosa forte que emana das escassas nuvens presentes.
Ainda o sol não raiava já ela se encontrava desperta. As parcas horas de descanço não fizeram diferença na sua figura: era o mesmo semblante carregado e cansado que envergara no dia anterior. é aquela mesma cara que demonstra que nada está bem no meio de um mar de possibilidades. Que nada acerta ou corre como queremos.
Levantando vagarosamente e penosamente a chávena cheia de café, arranjou-se para o trabalho. Precisava ainda de ir ao museu antes de ir visitar aquele por sobre quem a desgraça recaiu.
Vestida com roupas quentes de inverno parte ela. Olhando para o lado e esmorecendo perante a alegria não habitual de um parque cheio de crianças ou um café cheio de gente com o empregado a sorrir. Coisas habituais, banais, que quando se está em baixo vemos mais facilmente.
Penoso o caminho e duradoura a tortura. Quando finalmente chegou só queria correr, correr, mais uma vez sair dali sem dar explicações ou sem parar. Semblante carregado, andar desconfiado, atitude esquiva e assustadiça - tudo foi suficiente para estranharem.
O porteiro, as colegas, o director, a assistente... Todos duvidaram e interrogaram o porquê de comportamento tão fora do normal.
Insistente, como sempre, foi recebida e disse o último adeus. Enquanto os múrmurios e sussurros de espanto a perseguiam, ela fugiu. Largou a última ligação com o maior erro que fez, e ia agora visitar a moldura perfeita para lembrá-la.
Ainda antes de chegar, ela chorava. No caminho, ela chorava. A andar, ela chorava. Só de pensar, ela chorava... Parou o carro em frente ao portão descomunal e ladeado por dois simbolos de ossos cruzados com caveiras por cima.
Arrepios. O portão preto de grades de metal rangeu como se não visse óleo à anos, quando ela o abriu.
Nunca tinha entrado num sitio daqueles antes, nem pela ocasião da morte da sua avó porque era muito pequena. Olhou para todos os lados, tentando descortinar um momento de sossego para si mesma em que pudesse ponderar esta estranha decisão sem mais ninguém desconhecido por perto, e encontrou.
Um pequenino carreiro que acabava na moldura ideal para o seu fatal erro. Um carreiro que culminava na sepultura mais brilhante daquele antro de morte, a mais recente e mais esquecida delas todas: a sepultura de quem as consequências dos seus actos tinham morto.
Devagar, hesitantemente, estremecendo lá se aproximou. A cada passo ouvia as canções fúnebres presentes no seu coração, a cada passo ouvia o choro compulsivo que se desprendia de seu peito, um lago formava-se recente nos seus olhos e que turvava toda e qualquer visão. As suas pernas não obedeciam à sua vontade de correr dali para fora, pois a sua consciência estava determinada.
Julgando ouvir os demónios do inferno chamando por ela, o seu coração ia parando. As suas mãos e os seus braços já não mexiam. O terror era quase tanto como naquela hora fatídica, aquela hora amaldiçoada... Aproximou-se, cada vez mais lentamente, da frente da lápide. Apenas o nome, a data e uma fotografia adornavam e rompiam a serenidade da pedra.
O mesmo não se pode dizer dela. Ouvindo turbilhões de insultos, ressaltando nos seus ouvidos o eco das multidões, resvalando no seu ser os gritos de pavor, atravessando-a todos os medos que a amedrontam, fazendo-lhe mal todos os carrascos na sua cabeça... Ouvindo a sua mente, ela parou.
Parou. Parou e continuou a ouvir toda a orquesta e concerto vindo do inferno do seu consciente, do seu ser, da sua vontade, da sua culpa. Parou e disse:
- Desculpa. Não posso dizer mais, Desculpa. Eu ouço-te, eu ainda te ouço chamar por mim embora saiba que nunca mais te va ouvir. - cada palavra uma tortura, cada inspiração uma lágrima, cada segundo uma faca no coração - É a maior de todas as torturas saber que eu sou a razão porque estás assim, meu anjo. Agora é que posso dizer que és verdadeiramente o meu anjo. Adeus, não tenho forças para cá voltar. Esperas por mim, por favor?
Calou-se. Deixou-se ficar a ouvir os insultos dos fantasmas, o gozo de toda a escória que cobre a Terra, o escárnio da sua própria consciência ao seu ser... Enlouqueceu, situação insuportável. Um paradigma eterno: não posso desistir, mas de que me vale toda esta infelicidade?
A decisão não chega, o barulho continua: ressoam nos seus ouvidos todas as pragas e maleitas que alguma vez ouviu e leva as mãos aos mesmos, para abafar o som.
Som... som... Gritos... gritos... Som, som, Gritos, gritos. SOM, SOM, GRITOS, GRITOS, SOM, SOM, GRITOS, GRITOS, SOM, SOM, GRITOS, GRITOS! bip, bip, bip, biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiip!
E não mais ouviu.
A última coisa que se lembra foi de olhar com olhar suplicante para a lápide com que antes tinha estado a falar e suplicou para que ele estivesse à espera, que soubesse que ela queria ir ter com ele; e no segundo seguinte... estrondo. Um estrondo capaz de deitar abaixo autênticos arranha-céus, um estrondo que marcou um fim, que marcou este fim.
Sentiu-se leve por uns breves instantes e soube.
- Vou ter contigo agora, por favor espera-me e perdoa-me.
* * *
Silêncio.
Silêncio é o que cria caminho quando nos encontramos num sitio destes. Mas hoje... hoje um dos maiores sacrilégios alguma vez cometido choca cada segundo de um olhar atento aos destroços do que antes era uma organizada última morada dos defundos.
Choque.
Quando chegou lá nem queria acreditar. Pensando rápido como desviar os jornais deste caso inédito, pasmou. Não queria acreditar: não era possível, não podia ser possível!
- Isto não é verdade, é um pesadelo... Só pode...
Olhando à sua volta viu destroços do que antes foram lápides, viu restícios de respeitáveis pessoas e quase vomitou à vista do cenário principal. Aterrador, mortificante, realmente demoniaco e sem sentido.
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Acabou por hoje =P
Vão aparecendo mais, hehe.
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